Mandaguaçu

Lord Lovat iniciou a marcha de penetração no Norte do Paraná. A civilização, localizada a princípio em Londrina, vazou para outras regiões, derramando-sem em mulhares de ramificações, avançando pelo sertão bruto adentro. Tudo servia de fascínio aos olhos ávidos e experientes dos deróicos desbravadores. Extasiados pela pujança e uberdade do solo e das madeiras de lei, precipitaram-se na compra de terrenos e começaram o grande sacrifício e devoração da mata virgem.
Perobas, paus d’alho, cedros, marfins e demais árvores tombavam como gigantes abatidos pela mão do homem civilizado. As matas cediam lugar às clareiras. Nestas, o sol descansava mais quente. A vida se iniciava, multiplicava, fervia e surgiam povoados núcles. De Londrina partiam em picadões, tornavam-se independentes, surgindo daí os grandes centros populosos de Cambé, Rolândia, Arapongas, Apucarana, Mandaguari e outros.
Em 1939, teve início a formação da localidade conhecida por Lovat. No dia 30 de dezembro de 1943 foi elevado a Distrito, pertencendo ao município de Apucarana. Em 2 de outubro de 1947, Lovat passou a Município com a nova denominação de Mandaguari.
Após um certo tempo a civilização partiu do centro de Mandaguari e iniciou o desbravamento das matas, transpondo os limites, invadindo na sua marcha, áreas inexploradas, onde se localizavam outros agrupamentos, que, por sua vez, se transformaram em vilas e cidades. Assim, com o passar do tempo, surgiram: Mandaguaçu, Nova Esperança, Alto Paraná, Paranavaí, Nova Londrina, entre outras cidades.

De Cruzeirópolis à Mandaguaçu
O primeiro nome de Mandaguaçu foi Cruzeirópolis, mas, devido a má fama do lugar, deu-se origem ao nome Cale-a-Boca. A origem deste nome, Cale-a-Boca, se deu pelo motivo de alguns viajantes que passavam pela estrada, se depararam com um homem assassinado em frente ao boteco. Apontando para o morto esvaido em sangue, o mais espirituoso deles, apontou e soltou a expressão: “Olhem, este é o Cale-a-Boca!”.
O boteco citado, era uma venda simples, um ranchino coberto de acolchoados, de propriedade do Sr. Durvalino de Matos Medrado, que chegou ao local no dia 29 de junho de 1945, vindo de Apucarana, trazendo a mudança em um caminhão. Juntamente com ele, veio sua esposa e cinco filhos, ainda crianças, debaixo de um forte aguaceiro que o acompanhou durante todo o percurso de sua viagem.
Passado alguns dias, o Sr. Durvalino se instalava em uma habitação mais confortável, um casebre feito de palmitos e coberto de folhas de coqueiro, sendo que o proprietário do terreno era o Sr. Tito Rodrigues, o qual abrira um sítio em 1944, e nesta época já possuia uma lavoura de café.
O Sr. Tito Rodrigues, foi o primeiro habitante do município de Mandaguaçu da área rural, e Durvalino de Matos Medrado, o primeiro morador da área urbana da cidade.
Com o passar do tempo, ao redor da vendinha foram surgindo outros ranchos. Ali paravam os aventureiros, pessoas que passavam em busca de novos lugares e que eram considerados os valentes da época.
Por várias vezes, ao meio à luz de lampeões entremeadas de bate-bocas e regados de cachaça quente, surgiam outras disussões, degenerando em lutas corporais ferimentos e mortes, de tal maneira que o viajante amedrontado, aqui chegando, tinha que falar forçadamente bem do lugar, ou escolher em calar-a-boca para evitar conseqüências desastrosas para sua existência, ou então era despojado do dinheiro e furtado em suas mercadorias.
A má fama do lugar corria Mandaguari e região, para desprestígio da localidade. Diziam que quem passasse pela região do Cale-a-Boca, iriam experimentar as “aperturas da vida”, impedindo muitas famílias de se aventurarem no local.
Um senhor chamado João Vermelho era o Delegado do lugar, e recebeu ordens de seus superiores para prender qualquer pessoa que mensionasse o nome de Cale-a-Boca, para que se fizesse referência sim para Cruzeirópolis. Isso, ao mesmo tempo que tentou impedir a má fama do lugar, acabou aumentando mais ainda o famoso apelido.
A onda de gente que chegava e parava, imprimia outros impulsos à marcha civilizatória. O nome Cruzeirópolis significa: Cruzeiro (talvez homenagem ao Cruzeiro do Sul) e Pólis (palavra grega que significa Cidade), porém era longo e difícil de pronunciar pelos sertanejos. Alguns matutos deturpavam para Cruzerópi, assim, o Sr. Durvalino de Matos Medrados, resolveu colocar uma placa com os seguintes letreiros: Vila Guaíra, Estrada de Paranavaí. Isto aconteceu no início de 1948.
Com a nova denominação o lugar começou a aumentar. Durvalino de matos Medrado aconselhou ao loteador, o Sr. Bernardino Bogo, que vendesse os terrenos por preços baixos, e conseguiu. Isso acontecia em meados do mês de Agosto de 1948. nesta época já corria na região um ônibus da empresa Garcia, partindo de Londrina com ponto final na Fazenda Brasileira (atual Paranavaí). Passava uma vez por semana na estrada, um picadão aberto em plena mata virgem. Era tão estreito que se dois veículos se encontrassem, era preciso abrir um desvio entre as árvores para poder dar passagem um ou outro.
As viagens até tinham seus encantos e surpresas, à noite, quando alguma onça vinha espiar o barulho e ficava abobada pelos reflexos dos faróis, ou até mesmo algum veado correndo veloz, assustado pelo barulho e pela luz.
Seguindo o exemplo de Bernardino Bogo, vieram os senhores Santo Carraro e Custódio Periotto, os quais também lotearam suas propriedades. Isto gerou atritos com a Companhia Melhoramentos, aumentou a animosidade, entrando em luta abertam procurando sufocar o progresso de Vila Guaíra.
A Companhia considerava o ponto de Iguatemi como parada de descanso obrigatório, e Guadiana como outra etapa de parada, distante apenas uns sete quilômetros. Tudo isso para asfixiar Mandaguaçu em seu nascedouro em represália contra os ditos donos, que vendiam as terras loteadas por preços mais acessíveis.
Mesmo com todas as dificuldades, Vila Guaira desenvolveu-se espantosamente, conquistanto o direito de ser respeitada, e pleiteando do governo a sua independência. Na época do início de Cruzeirópolis, Maringá ainda não existia, era somente um ponto de referência. A cidade mais próxima era Mandaguari, sendo assim, Décio Medeiros Pulin, primeiro prefeito de Mandaguari, nomeou o Sr. Joaquim Rodrigues da Silva, líder político de Cruzeirópolis, como representante da Prefeitura na localidade.
Com o progresso chegando na região, foi criada a primeira escola, que foi denominada “Escola Isolada de Vila Guaíra”, tendo como primeira professora a Sra. Euclidea F. Jacomel.
Na época foi fundado o primeiro clube social e o primeiro time de futebol, com o nome de Nacional E. C., cujos fundadores foram os senhores Rodolpho Hudre e Luiz Pinelli.

Emancipação
Após o golpe em que era destituído do poder o presidente Getúlio Vargas, assumia o governo do Estado, eleito pela esmagadora maioria, o Sr. Moisés Lupion, muito simpatizante com a Vila Guaíra. Assim, a localidade herdou o seu nome e passou a denominar-se Governador Lupion.
Após isso, foram introduzidas inúmeras melhorias na cidade. Um pequeno conjunto diesel-elétrico veio a iluminar a localidade, aumentando o fluxo de progresso e o número de moradores.
Visando a emancipação política de Mandaguaçu, foi convocada uma reunião no dia 9 de janeiro de 1951, por Walter Norberto Eidt, que a presidiu, e eplo Dr. Carlos Jorge Ernesto Jullien, que atuou como secretário “ad hoc”.
Na madrugada do dia 10, foi formada uma caravana que se dirigiu até Curitiba, onde encontraram um forte apoio do Sr. Acioli Filho, na luta pela emancipação político-administrativa do local.
Esta caravana foi composta pelos senhores: Antonio Manna (presidente), Dr. Geraldo Barbosa do Carmo (vice-presidente), Walter Norberto Eidt (secretário) e os demais membros Custódio Periotto, Paulo Curci, Andílio Cellini, Luiz Secco, Rodolfo Hudre, Francisco Teixeira, Santo Carraro, Lourenço Francisco, Benício Moreira Niza, Luiz Lançoni e José Batista
Na Capital do Estado, toda a força de argumentação foi utilizada por esse arrojado grupo de moradores, e o objetivo foi conseguido, através da Lei n.º 613/51, onde se declarava, entre outros, o município de Mandaguaçu. Esta Lei lhe dava a tão sonhada autonomia e batizava o lugar com o novo nome, que, segundo a linguagem indígena, tem o seguinte significado:
Manda: AbelhaGuaçu: Grande

Instalação
Como o ser recém-nascido já luta pela vida, assim, Mandaguaçu após ter sido sancionada Município, teve que lutar contra a sorte adversa para viver como tal. Forças estranhas operavam junto aos Deputados e Governo. Se nossos cidadãos tivessem vacilado por apenas alguns segundos, o limite de seu território teria sido retalhado e unido a outros núcleos inferiores. Em partes, isso aconteceu. A divisa entre Maringá e Mandaguaçu passa quase às portas da cidade. Houve forte campanha pela abolição da Lei n.º 613, visando anular a autonomia de municípios recém-emancipados.
Ainda em 1951, a Assembléia Legislativa Estadual conseguiu a revogação da Lei 613, dando golpe de misericórdia à esperança de tantas localidades, que lutavam pela emancipação. E Mandaguaçu deixou de existir como Município.
No ano seguinte, o então Governador do Estado, Bento Munhoz da Rocha Neto, por simpatias com o nosso povo e por laços de parentesco com o Dr. Arahy Ferreira de Siqueira, então Presidente de Honra do Subdiretório local do P.R., incluir mensagem enviada à Assembléia constatanto Mandaguaçu entre os recém-criados e reformados Municípios na gestão passada. Assim, aos 17 de novembro de 1952, através da Lei 790, deu-se a emancipação definitiva do Município de Mandaguaçu.
Efetivado o desejo do povo, vieram as eleições. Entre os candidatos que disputaram a conquista da direção municipal, saiu vitorioso o nome do Dr. Arahy Ferreira de Siqueira.
Em 14 de dezembro de 1952, deu-se a instalação solene de posse do prefeito leito, bem como da posse dos componentes da Câmara Municipal de Vereadores, que ficou constituida pelos senhores: Geraldo Barbosa do Carmo (presidente), Augusto Afonso de Campos Brasil, Leonel Magalhães, Paulo Josér Curci, Sebastião Forchesatto, Arlindo Ramos de Amorim, Antonio Granzoto, Paulo Orlando, João Amaro de Farias.

Paróquia de Mandaguaçu
No dia 07 de janeiro de 1951, o Padre Domingos Dorner fundava em Mandaguaçu a Congregação Mariana.
A diretoria era formada por Carlos Vieira (presidente), José Balan, Walter N. Eidt, Francisco Bana, Jordão Lazarin e José Antonio Lazarin.
A Pia União das Filhas de Maria, foi fundada no dia 04 de julho de 1951, pelo Padre Francisco Zuttmmuler, sendo que sua diretoria ficou constituida da seguinte maneira: Valquíria Ganassim (presidente), Nilde Bellanda (vice), Gersi Ferreira (secretária), Dirce Bellanda (vice) e Rose Martins (teseoreira).
A Paróquia de Mandaguaçu, tendo como padroeiro o glorioso mártir São Sebastião, foi criada em 24 de outubro de 1951, por Dom Geraldo de Proença Sigaud, Bisbo de Jacarezinho. No dia 28 de outubro do mesmo ano, o Frei Guilherme de Magrédi e Frei Salvador de Migliadino, tomavam posse da nova paróquia, sendo que encontraram já instaladas a Congregação Mariana e Filhas de Maria.
Nesta época a paróquia abrangia as seguintes Capelas: Ourizona, São Jorge do Ivaí, Floraí, Irói (atual Castelo Branco), Guadiana, Atalaia e Iguatemi.
Os padres passaram a residir em uma casa adjacente à Capelinha, e tomavam refeições na residência do Dr. Itagiba Nogueira de Sá. Após uma certa temporada, passaram também a residir na residência do Dr. Sá, onde permaneceram por mais quatro meses.
Ainda no ano de 1951, no dia 15 de novembro, iniciou-se a construção da Casa Paroquial, a qual foi concluida no dia 20 de janeiro de 1952, tendo como presidente a Sra. Florípes Barbosa da Silva.

 

2 responses

21 12 2011
Alan Tristão

Texto muito agradável e pitoresco. Parabéns! Não conhecia a história de Manguaçu e muito me deliciei com a leitura.

16 02 2012
Luiza

Parabéns Paulo,adorei o texto!!!!
Estava fazendo um trabalho de Mandaguaçu,e o seu texto
ajudou bastante.
Muito bom!!! 😀

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